O cérebro humano é banhado continuamente por um líquido chamado líquor cefalorraquidiano, que o protege de impactos, regula a pressão intracraniana e transporta nutrientes. Em condições normais, esse líquido é produzido, circula pelo sistema ventricular e é reabsorvido em equilíbrio constante. Quando algo interrompe esse fluxo — seja um bloqueio na circulação, seja uma falha na reabsorção — o líquor se acumula progressivamente dentro dos ventrículos cerebrais, aumentando a pressão dentro do crânio. Isso é a hidrocefalia.
Em bebês e crianças pequenas, cujo crânio ainda não está completamente fechado, o sinal mais evidente costuma ser o aumento do perímetro cefálico (a cabeça crescendo mais rápido do que o esperado para a idade), associado ao abaulamento da fontanela (a moleirinha) e a veias proeminentes no couro cabeludo. Em crianças maiores, com o crânio já fechado, os sintomas são de hipertensão intracraniana: dor de cabeça (especialmente de manhã), vômitos em jato, visão turva ou dupla, e sonolência excessiva.
Causas mais comuns na infância
A hidrocefalia congênita — presente desde o nascimento — pode decorrer de malformações cerebrais (como a estenose do aqueduto de Sylvius ou a Malformação de Chiari) ou de infecções intrauterinas. A hidrocefalia adquirida pode surgir após hemorragia intraventricular (especialmente em prematuros), meningite, trauma craniano ou como complicação de tumores cerebrais. Em cada caso, o tratamento é individualizado conforme a causa e a gravidade.
Derivação ventrículo-peritoneal: o tratamento clássico
A derivação ventrículo-peritoneal (DVP) é o procedimento cirúrgico mais utilizado para tratar a hidrocefalia. Consiste na implantação de um cateter que drena o excesso de líquor do ventrículo cerebral para a cavidade peritoneal (abdome), onde é reabsorvido naturalmente. Um sistema valvular regulável controla a quantidade de líquor drenada, evitando tanto o excesso quanto a insuficiência de drenagem. O sistema funciona de forma contínua e passiva, sem necessidade de intervenção externa.
A DVP é uma cirurgia consolidada e segura, com décadas de experiência. No entanto, como todo implante, pode apresentar complicações ao longo do tempo — principalmente obstrução ou infecção do cateter — que eventualmente exigem revisão cirúrgica.
Ventriculostomia endoscópica: a alternativa sem implante
Para casos selecionados de hidrocefalia obstrutiva (onde há um bloqueio no caminho do líquor), existe uma alternativa cirúrgica que evita o implante de prótese: a ventriculostomia endoscópica do terceiro ventrículo (VE3V). Nesse procedimento, o neurocirurgião utiliza um neuroendoscópio para criar uma abertura no assoalho do terceiro ventrículo, criando uma via alternativa para o fluxo do líquor — sem nenhum material implantado. Quando bem indicada, a VE3V oferece a possibilidade de tratar a hidrocefalia de forma definitiva, sem os riscos associados ao implante de derivação.